Controvérsia acadêmica

Mesentério é um novo órgão?
Vamos rever alguns conceitos já bem estabelecidos antes de dar minha opinião, com objetivo de colaborar com a discussão em pauta.
Tecido – formado por um grupo de células semelhantes que desempenha uma função especializada. Tipos: 1-epitelial (revestimento e glândulas); 2-conjuntivo (protege, sustenta, une e isola, sendo o mais abundante). Forma osso, cartilagem, gordura e sangue, cuja particularidade deste último é ter a matriz líquida (plasma); 3-muscular e 4-nervoso.
Órgão – formado por um grupo de tecidos (dois ou mais) que desempenha uma função específica. Alguns estudiosos complementam ao considerar que um órgão deve ter uma forma definida, como o coração, estômago, rim, entre tantos outros. Creio que nesse sentido estariam excluídas as túnicas como a pele e o peritônio, por exemplo.
Túnica (membrana) – envoltórios constituídos por tecido epitelial e tecido conjuntivo, como a mucosa, a serosa e a pele (cútis). Esta é considerada o maior órgão do corpo.
Deixando a polêmica de lado e considerando o conceito clássico de órgão, então devemos entender e aceitar as túnicas do corpo como sendo órgãos constituídos por dois tipos de tecidos.
Assim, o órgão é o peritônio (a mais extensa membrana serosa) todo e não somente uma de suas diversas projeções (reflexões), a exemplo do mesentério destacado pelos autores irlandeses. Portanto, não compartilho com a visão dos referidos colegas.
E mais, se eles propõem considerar o mesentério isolado e classificá-lo como órgão, deveriam também incluir os demais mesos que têm as mesmas características morfológicas de estrutura e função (mesocolo transverso, mesocolo sigmoide, mesoapêncice, mesovário, e até os omentos). Por que não?
Seguindo na mesma linha de raciocínio, deveríamos também considerar a pleura e o pericárdio como órgãos, por serem as outras duas túnicas serosas do corpo. OBS. As serosas apresentam um substrato de tecido conjuntivo com uma camada de células epiteliais secretoras, o mesotélio.
Para concluir, faço as seguintes considerações em relação ao que tem sido destacado por alguns profissionais da área ao justificar a proposta: 1- mesentério e produção de proteína C reativa. O fígado produz, tendo relação com processos inflamatórios em geral e não em particular com o mesentério; 2- doença de Crohn, comprometendo a parede intestinal e resultando em comprometimento do peritônio que reveste o intestino, como ocorre com a parte terminal do íleo; 3- paniculite mesentérica, comprometendo a gordura armazenada no mesentério, principalmente na sua raiz e, ocasionalmente, no mesocolo; isquemia mesentérica por obstrução dos vasos que fazem seu trajeto entre as lâminas do mesentério, entre outras alterações.
Portanto, os exemplos de problemas mencionados não são exclusivos do mesentério ou, em sentido mais amplo, do peritônio. São alterações primárias em órgãos que apresentam revestimento peritoneal e que podem refletir na proliferação da gordura que está armazenada na serosa, nos vasos sanguíneos e linfáticos que transitam entre suas lâminas ou em processo de fibrose do próprio peritônio, seja a parte que for desta ampla membrana de revestimento das paredes da cavidade abdominopélvica e seus órgãos.

Autor da Matéria
Eduardo Cotecchia Ribeiro
Professor Associado de Anatomia Descritiva e Topográfica
Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo